Por Humberto Ramos Oliveira Jr.

Como está o Brasil? O que dizer do país neste período pós-impeachment, naquilo que relutantemente podemos chamar de governo Temer? Trata-se de uma tarefa bastante difícil apresentar um quadro de nosso momento político e social. Vivenciamos um tempo bastante complexo, um período no qual a população parece estar aturdida, apesar dos diversos escândalos do atual governo, de uma estarrecedora crise no sistema carcerário e do caos social instalado em alguns Estados do país, como Rio de Janeiro e, principalmente, o Espírito Santo.

Ora, o ano de 2016 foi bastante conturbado. O país pôde assistir pela segunda vez um presidente ser retirado de seu cargo por meio do instituto do impeachment, que se deu em meio a manifestações populares nas ruas e apoio irrestrito de parte do empresariado e toda a imprensa hegemônica – isso sem falar na significativa legitimação conferida a toda essa movimentação política pelas alas conservadoras dos evangélicos e católicos.

Experimentamos agora os efeitos colaterais do ano que passou. Alguns fatos merecem ser lembrados. Em São Paulo, o empresário e apresentador televisivo João Dória Jr (Partido da Social Democracia Brasileira) derrotou surpreendentemente o candidato do Partido dos Trabalhadores, no seu discurso a gramática da negação do político. Não se identificou com qualquer posicionamento político-ideológico claro, apenas reiterou ser administrador, um gestor capaz de dar soluções que os políticos não seriam capazes de dar. E no Rio de Janeiro, o sobrinho do bispo Edir Macedo (Igreja Universal) e também bispo – licenciado –, Marcelo Crivella, elegeu-se prefeito. No seu discurso também apareceu a figura do candidato genérico, sem identificação clara com uma posição ideológica. No seu caso, até mesmo sua identidade religiosa foi camuflada por uma capa de generalidade. Ao invés de bispo da Igreja Universal, apresentou-se como um evangélico apenas. Um crente aberto ao diálogo e, por que não dizer, quase ecumênico? Afinal, flertou durante a campanha com o cardeal católico do Rio, Dom Orani Tempesta.

Outra capital brasileira também seria conquistada por um (digamos) não-político; Belo Horizonte viu ascender ao poder Alexandre Kalil (Partido Humanista da Solidariedade), ex-presidente de um clube de futebol, com um discurso também muito parecido com o do atual prefeito de São Paulo. Num ano em que os Estados Unidos entregaram o comando da Casa Branca a Donald Trump, também negador das dimensões do político, pode-se dizer talvez que 2016 se caracterizou por ser o ano do “pós-político”. Não apenas pelos exemplos aqui dados, mas pelo discurso que graça nos principais centros políticos mundo afora.

Acerca desse “espírito” Chantal Mouffe[i] já havia nos alertado em boa parte de sua obra. Para a autora, há uma clara distinção entre aquilo que chama de “o político” e “a política”. “O político” é a dimensão ontológica do antagonismo, do conflito de ideias e que, por sua vez, não pode ser erradicado, é parte essencial da vida humana. Já “a política”, seria conjunto de práticas e instituições cujo objetivo é a organização da existência humana (é permeada pelo político). Para Mouffe, o problema de negar as contradições e os conflitos inerentes à vida em sociedade, tornando-os latentes, não concedendo um espaço “agonístico” propício para o enfrentamento a partir de regras claras e democráticas, tem como resultado o agravamento das diferenças. Isto é, ao invés de tornar o espaço público um ambiente agonístico, no qual possa-se debater a partir daquilo que a autora denomina como lógica adversarial (entre adversários), passa-se a assumir a lógica amigo-inimigo na qual o espaço público se converte em um campo de batalhas.

Ora, no caso brasileiro pós-Impeachment, parece haver manifestado um certo cansaço da população em relação à política, até mesmo um desprezo. Assim, a despeito dos escândalos, dos casos de corrupção envolvendo o atual governo e revelado timidamente pela imprensa (que o blinda) a partir das investigações, das céleres iniciativas do governo em promover diversas reformas (da educação e já no prelo a da previdência e do trabalho), além de mudanças significativas na gestão, a população parece anestesiada.

Anestesiada para a vivência política formal, uma vez que os sindicatos estão enfraquecidos, a esquerda desmoralizada eticamente por conta dos casos de corrupção nos quais o PT esteve envolvido quando governo e, ao mesmo tempo, esfacelada girando em torno de causas de minorias (isto é, sem um discurso sólido que unifique os distintos grupos da esquerda nacional). É nesse contexto que aquilo que Chantal Mouffe nos adverte tem acontecido, temos aí um ambiente propício para a lógica “amigo/inimigo”. Dá lugar à razoável disputa entre adversários políticos o enfrentamento entre inimigos.

O clima de ódio e intolerância política toma conta das mídias sociais. Via de regra, tais manifestações são dirigidas às ideologias de esquerda, aos grupos feministas, mas também há manifestações racistas de toda sorte, bem como homofóbicas. Este é o cenário brasileiro resultante da ruptura institucional provocada pela destituição de Dilma Rousseff aliada à falácia do discurso “pós-político”. Discurso esse que encontra guarida entre os cidadãos medianos, agravando seu desprezo à política, sua descrença quanto a qualquer tipo de militância e apreço por narrativas tais como os que negam a ideia de “Direita” e “Esquerda” e que, por outro lado, assumem como maior marca a radicalização de uma agenda política fascista.

A metáfora dos tempos líquidos elaborada por Bauman se faz adequada ao cenário político brasileiro. A vida política nacional parece um caleidoscópio, encontramos uma sociedade fragmentada, indignada sem, contudo, qualquer tipo de organização relevante que possibilite alterar o quadro em questão e absolutamente fragmentada em sua própria indignação, que é seletiva e também impregnada de descrença.

Diante de tal anestesiamento, tenho reiteradamente citado uma frase de um de nossos expoentes da Teologia da Libertação, o Frei Betto: “deixemos o pessimismo para dias melhores”. A cena é tão ruim que, penso eu, não temos tempo a perder lambendo nossas próprias feridas. É preciso, portanto, resgatar a palavra esperança, esta palavrinha que, no século passado, deu origem a diversas obras de cunho teológico e revolucionário, inspirando um sem-número de pessoas na construção de projetos de transformação social especialmente na América Latina.

Apesar do diagnóstico nada animador, é com esta palavra em mente que encerro esta minha reflexão, na verdade, termino com as palavras de Erich Fromm em seu livro A revolução da Esperança:

A esperança é paradoxal. Não é uma esperança passiva nem um forçar irreal de circunstâncias que não podem ocorrer. É como o tigre agachado que só saltará quando chegar o momento de saltar. (…) Ter esperança significa estar pronto a todo momento para aquilo que ainda não nasceu e todavia não se desesperar se não ocorrer nascimento algum durante nossa existência. Aqueles cuja esperança é fraca decidem pelo conforto ou pela violência; aqueles cuja esperança é forte veem e apreciam todos os sinais da nova vida e estão prontos a todo instante para ajudar no nascimento daquilo que está pronto para nascer[ii].

 

 

[i] MOUFFE, Chantal, Agonística. Pensar el mundo políticamente. Traducción de Soledad Laclau. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2014.

[ii] FROMM, Erich. A Revolução da Esperança: Por uma Tecnologia Humanizada. Trad. Edmond Jorge. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.