Por Humberto Ramos de Oliveira Jr.

Se há algo que aprendemos na política é que as relações entre os políticos sempre podem nos surpreender. Inimigos podem se tornar aliados e ofensas, esquecidas. Aliados, por sua vez, podem se tornar adversários mordazes, maculando longos históricos de cooperação e parceria. Isso talvez porque, via de regra, o poder seja o fim maior de boa parte da atuação daqueles que disputam o jogo político.

Mudaria o quadro se os políticos em questão atuassem sob orientação de uma determinada confissão religiosa? Por exemplo, a fé cristã, evangélica ou católica. Os fatos têm mostrado que não. Aliás, as movimentações de políticos evangélicos e católicos e lideranças religiosas com influência política têm mostrado o quão capazes são esses atores de assumir o ethos pragmático e fisiológico característico da política brasileira.

Sem delongas, quero mencionar o caso concreto das eleições municipais no Rio de Janeiro, onde o pleito eleitoral não se decidiu no primeiro turno. Lá, enfrentando-se e defrontando-se, estavam Marcelo Crivella, do Partido Republicano Brasileiro e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e Marcelo Freixo, deputado pelo Partido Socialismo e Liberdade. Como se poderia esperar, de um lado, estava o homem de Deus, defensor da família e bons costumes; do outro, Freixo, arcando com o estereótipo esquerdista contrário aos valores cristãos e da família tradicional brasileira.

Para além da questão dos estereótipos, os fatos. É inquestionável que tanto Crivella quanto Freixo representavam programas de governo absolutamente distintos. Um se apresentou à população a partir do campo conservador e o outro, a partir do campo progressista. O que chama a atenção é a versatilidade do bispo licenciado. Marcelo Crivella fez sua carreira política depois de longos anos como missionário da Igreja Universal no continente africano. Ademais, é sobrinho do fundador e líder máximo da denominação, Edir Macedo. Apesar de tudo isso, desde sua entrada na política partidária, o candidato tem assumido estrategicamente uma postura que o distancia da figura de clérigo neopentecostal. Portando-se apenas como um líder evangélico.

Foi assim que fez toda a sua carreira política, inclusive assumindo no governo da presidente Dilma cargo de Ministro de Estado. Na atual campanha, Crivella tem se esforçado ainda mais em sua imagem de liderança religiosa interdenominacional e quiçá ecumênica. Chegou ao ponto de encontrar-se com o arcebispo católico do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, a fim de entregar-lhe um exemplar de seu plano governo para a cidade. Acontece que tais esforços esbarram num passado de pouco diálogo com as outras denominações evangélicas, críticas severas ao catolicismo, demonização dos cultos de matriz africana e condenação dos homossexuais.

O passado pregresso do bispo licenciado é compatível com a própria história da Igreja Universal, cuja militância religiosa possui como linha de frente uma teologia de batalhas e enfrentamentos espirituais que se dão, no melhor estilo do testamento hebraico da Bíblia (Velho Testamento), contra as chamadas religiões idólatras. Assim, desde sempre demonizaram as religiões africanas, bem como se opuseram ao catolicismo chegando ao ponto de, no ano de 1995, o bispo iurdiano Sérgio Von Helder, num culto televisionado, desferir alguns golpes e xingamentos contra uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida.

A política, entretanto, conta tanto com a hipocrisia de alguns líderes quanto com a fraca memória da população. De modo que fisiologismos e alianças espúrias raramente geram qualquer desconforto seja em quem opta por elas quanto entre os eleitores. E, para ir mais adiante, vale mencionar outra figura bastante polêmica e controversa do movimento evangélico brasileiro, Silas Malafaia. O líder assembleiano é assíduo participante da cena política nacional ainda que oficialmente fora da política partidária. Este também é marcado por idiossincrasias.

A respeito das eleições do Rio, Malafaia não apoiou abertamente Crivella, pois é inimigo de seu tio Edir Macedo. No entanto, sendo também inimigo de tudo o que possa vir da esquerda, manteve-se firme numa campanha contrária ao candidato do Partido Socialismo e Liberdade, publicando semanalmente vídeos elencando razões pelas quais cristãos não deveriam votar em Freixo. Malafaia, que sempre se manifestou como sendo a voz dos evangélicos, agora flexibiliza sua postura religiosa sectária a fim de combater seus oponentes (políticos progressistas) e dirige-se também aos católicos, chegando ao ponto de ter publicado um vídeo em que um conhecido padre conservador, Paulo Ricardo, faz um apelo a evangélicos e católicos que se unissem a fim de derrotar o inimigo em comum na política brasileira.

Essas iniciativas têm sido comuns e em período de eleições se tornam mais evidentes. Evangélicos e católicos conservadores assumem uma espécie de ecumenismo beligerante, isto é, um ecumenismo de guerra a fim de enfrentar as batalhas no campo da política. Uma clara disputa por poder e hegemonia, na qual questões teológicas complexas que sempre dificultaram as boas relações entre evangélicos e católicos são postas de lado a fim de, juntos, afastarem o risco da deterioração “dos valores e da família”, como costumam discursar.

Nessa correlação de forças, Crivella se elegeu prefeito do Rio de Janeiro. E Brasil afora candidatos conservadores lograram êxito sustentando um discurso de retorno aos valores cristãos, tradicionalistas, da família nuclear representada por homem e mulher (héteros). Deus está cada vez mais presente na cena política, e se alocou do lado dos conservadores, está com a direita. Uma direita engrossada pela participação/união conveniente de evangélicos, católicos carismáticos e tradicionalistas.

É claro, Deus não é monopólio da direita, mas… Onde estamos os cristãos progressistas na política brasileira?…