Por Humberto Ramos

O Brasil é um celeiro cultural, um país de todos, terra hospitaleira, de gente amiga e cordial. Bem, era assim que nos referíamos a nós mesmos até os últimos acontecimentos políticos. Depois da instalação plena da crise política que teima em não nos deixar, os ânimos se acirraram, polarizações e radicalizações de todo tipo apareceram. Pudemos assistir desde o preconceito contra nordestinos à repulsa aos adeptos de posições políticas esquerdistas, havendo até incidente de agressão a pessoas vestidas de vermelho (cor ostentada por alguns partidos esquerdas). Parece-me que a situação proporcionou meios para que moléstias latentes se manifestassem.

Entretanto, a verdade é que já éramos uma nação profundamente preconceituosa e intolerante; homofóbica, racista e desigual. Figuramos como país campeão mundial em crimes homofóbicos, uma triste marca. Estima-se que a chance de um homossexual ser assassinado no Brasil seja de 785% maior que nos Estados Unidos. No quesito feminicídio, também estamos no topo. Estamos entre os 10 países que mais matam mulheres no mundo. Além disso, nossa polícia segue sendo extremamente violenta, uma violência e letalidade que se dirige majoritariamente aos mais pobres, aos negros, às periferias.

O que significam tais fatos? O grau de conservadorismo de nossa sociedade teria algo a ver com essa realidade? A religião, geralmente conservadora, contribui para tal? Desde 2010 os discursos conservadores vêm recrudescendo, mais que isso, uma militância conservadora mostra sua cara à sociedade. Entre eles estão alguns grupos religiosos cristãos, evangélicos e católicos (especialmente os carismáticos). No Congresso, a representação evangélica, pela Frente Parlamentar Evangélica, mostra-se bastante ferrenha ao se opor às propostas mais progressistas e na tentativa de emplacar pautas que revelam um certo perfil inclinado ao fundamentalismo. Junto desses também atuam os católicos carismáticos, que, diferentemente de seus irmãos mais tradicionais, fazem questão de justificar sua atuação pela sua fé.

Ao perguntar o papel da religião, quero dizer cristianismo. Afinal, o Brasil é laico, plural, democrático, mas sobretudo cristão. De acordo com o último censo (2010), os católicos somam 64,6% e evangélicos das mais diversas denominações (sendo a maioria pentecostal) alcançam 22,2%, isto é, juntos constituem a esmagadora maioria, 86,8%. Os outros 13,2% abrigam espíritas, cultos de matriz africana, os sem-religião, dentre outros. Esses números sugerem que o Brasil é, ao menos culturalmente, um lugar marcado pelos traços da tradição judaico-cristã.

Essas marcas podem ser notadas na vivência cotidiana das pessoas. Nas escolas públicas, a reza resiste à educação laica; nos equipamentos públicos em todos os níveis, crucifixos seguem sendo ostentados nas paredes, exemplo máximo disso é a presença de crucifixos na maior parte das câmaras legislativas do país, inclusive no Congresso Nacional – e até mesmo no Supremo Tribunal Federal. São alguns dos traços hegemonia católica e de uma laicidade ainda abstrusa.

E no atual cenário, em que conservadores católicos e evangélicos parecem notar que possuem mais afinidades do que divergências, mostram-se bastante coesos. Juntos valem-se do seu poder numérico a fim de garantir a manutenção desta preeminência cultural. Em determinados momentos nos últimos anos, uniram-se em uma coalisão utilitária (tendo em vista interesses comuns) a fim de fazer lobby político tanto no nível nacional quanto nas instâncias estaduais e municipais.

Este é o pano de fundo da cena religiosa no Brasil. Obviamente, há uma infinidade de expressões de fé e crenças, afinal é garantida legalmente a sua liberdade seja religiosa, filosófica e também a liberdade de expressão, o que afiança a ocorrência das mais diversas manifestações. No entanto, vale ressaltar, os diferentes conformam uma minoria. Não apenas no sentido estatístico, mas naquele sentido costumeiramente usado nos estudos sociológicos, que se referem à representatividade político-social e capacidade de mobilização.

É importante lembrar que em tempos de crise política e econômica, deve-se voltar as atenções aos grupos sociais minoritários, visto que geralmente são os que mais têm a perder, como a história nos mostra. Tornam-se esses os alvos mais fáceis, muitas vezes os bodes expiatórios elegidos para levar embora todo o mal consigo ao serem eliminados do convívio social. No Brasil, os cultos de matriz africana, os e as homossexuais e até mesmo as mulheres configuram os grupos sociais com menor representação política. Na prática, isto implica em menores condições de resistir às ofensivas conservadoras e aos retrocessos quanto aos direitos conquistados.

Assim sendo, neste momento, o Brasil requer olhar atento, cuidadoso, especialmente acerca das esferas envolvendo religião, política e direitos humanos. A instabilidade política e econômica que nos assola reverbera em nossa sociedade. As placas tectônicas da vida social encontram-se em constante movimentação. Para os interessados em analisar os fenômenos sociais, o momento é rico porém exige cautela redobrada.